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I
O
aleijado conhecera dias mais felizes; agora, no entanto,
seu estado era de miséria e de doença. Assim ele se
encontrava.Quando o aleijado tinha feito sete anos,
ficara com as pernas esmagadas por uma carruagem, na
estrada que ligava Petrópolis ao Rio. Uma ferida feia
em sua cabeça também deixou seqüelas em seu pensar e
proceder doravante. Totalmente incapaz desde então,
mendigou, arrastando-se ao longo dos caminhos, através
das ruas e pátios das quintas, balouçando-se nas
muletas, que lhe tinham feito levantar os ombros à
altura das orelhas. A posição de sua cabeça, ao
empunhar as mesmas dir-se-ia enterrada entre duas
montanhas. Antes de ter sido atropelado, sua triste sina
dava-o como enjeitado e encontrado à míngua
num fosso, pelo pároco Frei Antunes, na véspera
do dia de Finados. Batizado em razão disso como
Aparecido do Fosso, foi educado na base da caridade de
qualquer alma que lhe estendesse as mãos.
Daí
que o aleijado ficara estranho a todo e qualquer grau de
instrução. Dono de triste figura,
estropiado depois de ter bebido alguns copos de
aguardente oferecidos pelo padeiro da aldeia, para que
fizesse todos rir, não tardou em dar em vagabundo. O
aleijado nada sabia fazer que estender a mão à
caridade...Outrora, a baronesa dos Coquinhos, dona de
algumas mansardas piolhentas no lugarejo, compadecida de
sua situação , tinha concedido ao aleijado, para
dormir, uma espécie de nicho cheio de palha, ao lado do
galinheiro, na herdade que se ligava ao casarão onde
residia: e ele ,ali se deixava ficar, ao abrigo e certo
de que nos dias de grande fome, encontraria sempre um
pedaço de pão e um copo de cachaça na cozinha mais próxima.
Muitas vezes, recebia também algumas patacas atiradas
pela velha senhora do alto da sua escadaria ou das
janelas do seu quarto. Porém, ela morrera no último
inverno, de sorte que o tinham enxotado do galinheiro...
Fora
do lugarejo porém, não lhe davam nada... Conheciam-no
por demais; estavam todos enjoados; havia quarenta anos
que o aleijado passava o deformado corpo andrajoso sobre
as suas duas patas de madeira. Todavia, o aleijado não
queria deixar aquele lugar. Até porque não conhecia
outra coisa sobre a Terra a não ser aquelas três ou
quatro aldeiotas onde arrastara a sua vida miserável.
Marcara inconscientemente seus limites e não teria
nunca passado os limites que se acostumara...Ignorava se
o mundo se estenderia ainda muito para além das árvores
que sempre tinham servido de limite à sua vida. Nem
sequer o perguntava a si próprio. E quando os sitiantes
e comerciantes, cansados de o encontrarem todos os dias
à beira dos seus campos ou vendas, lhe gritavam:
-
Aleijado, porque não vai para as outras aldeias, em
lugar de ficar andando sempre a muletar por aqui?
Ele
não respondia e afastava-se, tomado de um medo vago
pelo desconhecido, de um medo de pobre que receia
confusamente mil coisas... as novas caras, as injurias,
os olhares de desconfiança e suspeita das pessoas que o
não conheciam, e os polícias que andavam, como de
costume, dois a dois pelas estradas e que o faziam se
esconder, por instinto, nas moitas ou por detrás das
pedras. Quando os via de longe, reluzentes em seus
uniformes ao sol, o aleijado encontrava de repente uma
agilidade singular, uma agilidade de monstro, para alcançar
qualquer esconderijo. Saltava nas muletas, e deixava-se
cair à maneira de um trapo, rolando como uma bola,
tornando-se pequenino, invisível, acaçapado como uma
lebre na sua loca, confundindo os seus trapos russos com
a terra.Apesar de nada dever, ele desenvolvera aquilo na
massa
cerebral, como se houvesse recebido aquele temor
e aquela manha dos seus ascendentes, que não
conhecera...
Não
tinha refugio, nem teto, nem cabana, nem abrigo. Dormia
por toda à parte, quer no verão quer no inverno,
introduzindo-se nas granjas ou nos estábulos com
uma ligeireza notável. E se mandava aos primeiros
albores das manhãs,
antes que houvessem dado pela sua presença. O
aleijado conhecia os buracos para penetrar nas construções;
e o manejar constante de suas muletas havia-lhe dado aos
braços um vigor tão surpreendente, que trepava só à
força de pulso até aos celeiros de forragens, onde se
conservava quatro ou cinco dias sem ruídos, quando
havia recolhido no seu giro as provisões suficientes...
Vivia
como os animais dos bosques mas, no meio dos homens, sem
conhecer ninguém, sem amar ninguém, não excitando aos
camponeses mais que uma espécie de desprezo indiferente
e de hostilidade resignada. Tinham-lhe posto a alcunha
de "Sino" porque se balançava, entre as suas
duas muletas de pau como um sino se balança entre os
seus suportes.
II
Havia
dois dias que o aleijado não comia. Ninguém já lhe
dava nada. Por fim, nem já o queriam ver. As pessoas às
portas, gritavam-lhe quando o viam chegar:
-
Circulando aleijado vagabundo e mandrião!! Ainda não
tem três dias que te dei pão e restos do jantar!
E
o aleijado então girava sobre as suas estacas e
dirigia-se à casa vizinha, onde o recebiam da mesma
maneira. As mulheres declaravam de porta para porta:
-
Mas será possível que teremos que sustentar este vadio
todo o ano.?
Todavia,
o mandrião tinha necessidade de comer todos os dias.
Sua desesperança o tinha feito percorrer as aldeolas
conhecidas, sem no entanto, recolher um centavo ou uma
simples refeição. Só lhe restara então, uma última
esperança, a cidade grande mais próxima... Mas era-lhe
preciso caminhar ainda umas oito léguas pela estrada
real, e sentia-se cansado a ponto de não poder
arrastar-se mais, tendo a barriga tão vazia como a
algibeira. Apesar de tudo, pôs-se em marcha. Era julho,
um vento frio percorria os campos, sibilava nos ramos
nus; e as nuvens galopavam através do céu baixo e
sombrio, apressando-se em seguir não se sabe para onde.
O aleijado caminhava lentamente, deslocando os seus
suportes um após outro com penoso esforço,
escorando-se na perna torcida que lhe restava, terminada
por um pé aleijado e calçado por um trapo.
De
tempos em tempos, assentava-se à beira da estrada e
descansava alguns minutos. A fome punha uma grande mágoa
na sua alma confusa e pesada. Ele só tinha uma idéia:
«comer», mas não sabia como...Durante oito horas,
penou na comprida estrada depois, quando avistou as
arvores e primeiros sinais de edificações da cidade
grande, apressou os seus movimentos. O primeiro lavrador
que encontrou e ao qual pediu esmola, respondeu-lhe:
-Sai
daqui coisa estropiada e diabólica... fora de minhas
vistas!!
E
"Sino" afastou-se. De porta em porta não
foi diferente..., correram-no, recambiaram-no, sem lhe
darem nada. E ele continuava, apesar disso, o seu giro,
paciente e obstinado, sem lograr matar a fome ou ganhar
uma moeda sequer. Então visitou as chácaras e sítios,
caminhando através das terras amolecidas pelas chuvas,
por tal forma cansado que nem sequer dava conta mais de
levantar as muletas. Escorraçavam-no de toda a parte.
Era um desses dias frios e tristes em que os corações
se fecham, em que os espíritos se irritam, em que a
alma está sombria, em que a mão não se abre nem para
dar nem para socorrer.
Quando
acabou de visitar todas as casas que conseguiu, foi cair
ao canto de uma vala, ao longo do pátio em frente à
casa do estancieiro Sr Juca Melão. Esperava não se
sabe o que, naquela vaga esperança que existe constante
em nós.
Esperava
no canto daquele pátio, debaixo do vento gelado, o auxílio
misterioso que se espera do céu ou mesmo dos homens,
sem que se saiba como, nem porque, nem por quem ele nos
poderá chegar. E ali estava o aleijado, imobilizado de
fome e sofrimentos
quando à sua frente passou um bando de galinhas
pretas a cacarejar em azáfama própria das penosas,
buscando a sua vida na terra que alimenta todos
os seres. A cada instante bicavam um grão ou um inseto
invisível, depois continuavam as suas buscas lentas e
segura. "Sino" olhava para elas sem pensar em
nada; depois veio-lhe, mais no ronco infame da barriga
propriamente à cabeça, que um daqueles bichos seria
bom para comer assado entre duas achas de lenha secas,
em um fogo quentinho e reconfortante. A suposição de
que ia cometer um roubo nem de leve lhe passou pela idéia.
Pegou numa pedra que se achava ao alcance da mão, e, em
lance certeiro, atirou por terra a ave que estava mais
próxima.
A
ave caíra de flanco e o «Sino», escalando novamente
as suas muletas, pôs-se em marcha para ir apanhar a sua
caça, com movimentos iguais aos das galinhas. Ao chegar
perto do pequeno corpo preto manchado de vermelho na
cabeça, recebeu um empurrão terrível pelas costas,
que o fez cair das muletas e o fez rolar a dez passos
para frente.
Era
o Sr Melão que espumava.. doido de ódio. Avançando célere
sobre o aleijado caído, encheu-o de pancadas, com o
punho e com o os pés por todo o corpo do enfermo, que não
podia defender-se. As pessoas da estância chegaram por
sua vez e puseram-se com o patrão a sovar o aleijado.
Depois, quando se cansaram de surrá-lo, agarraram nele
e fecharam-no numa casinha de lenha, enquanto iam a
busca da polícia. "Sino", meio morto,
sangrando e estourando de fome, ficou deitado no chão.
Chegou a tarde, veio à noite, depois a aurora, e ele
sem comer.
Pelo
meio dia, os policiais apareceram e abriram a porta com
precaução, esperando uma resistência, porque o Sr Melão,
homem honrado e cumpridor de seus deveres como cidadão
dizia ter sido atacado pelo vadio e ter-se defendido a
grande custo. O cabo bradou:
-
Vamos! levanta safado!
Mas
"Sino" não podia se mexer... Bem que ainda
tentou por-se de pé nos seus suportes, mas não o
conseguiu. Julgaram que era fingimento, que era manha,
que era má vontade do malfeitor, e os dois homens
armados trataram-no da forma que toda polícia de todo
mundo, todo tempo e lugar sabe fazer... E plantaram-no
à força sobre as muletas. O medo então, terrível,
apossara-se dele. Aquele medo inato que os desgraçados
têm das correias militares, o medo da caça em presença
do caçador, do rato diante do gato. E, com esforços
sobre-humanos o aleijado conseguiu se por de pé.
-
Marche! disse um dos policiais... Ele marchou. Todo o
pessoal da estância o via partir. As mulheres
mostravam-lhe o punho; os homens chacoteavam-no,
injuriavam-no: tinham-lhe dado fim! Estavam livres. Ele
afastou-se entre os dois guardas. Achou a energia
desesperada que lhe era precisa para se arrastar ainda
até à noite, embrutecido, não sabendo nem sequer o
que lhe sucedia, assustado por demais para que pudesse
compreender. As pessoas que o encontravam detinham-se
para vê-lo passar e murmuravam...
-
É algum ladrão!
Pela
noitinha, chegaram à comarca. O aleijado nunca tinha
ido até ali. Não dava verdadeiramente conta do que se
passava nem do que lhe podia acontecer. Todas aquelas
casas novas o consternavam, confundiam-no ainda mais que
as dores pelo corpo, pelos cacos de dentes quebrados aos
chutes da turba e pela fome atroz que graçava...Não
pronunciou mais uma palavra, nada tendo a dizer, até
porque nada compreendia. Desde muitos anos que não
falava a ninguém, por isso quase perdera o uso da
linguagem. Encerraram-no na prisão da vila. Os
policiais não pensaram em que ele poderia ter vontade
de comer, e deixaram-no até ao outro dia. Quando vieram
para o interrogar, logo de manhãzinha, acharam-no
morto, no chão.
Que
surpresa!...
Novembro
de 2006
MariaAntonietaRdeMattos.
http://mariaantonietta.multiply.com
mariahantonieta2003@yahoo.com.br
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