
Tem uma música do Chico, inspirada naquela
brincadeira de criança em que se vai mudando de
personagem, algo assim “agora eu era rei...” e
depois “agora eu sou cowboy”...
O sentido do verbo no pretérito é bem esse, um sonho
que ficou no passado e jamais se tornou realidade. A
verdade nua e crua é a do cowboy e o rei virou fumaça.
Era assim mesmo nas brincadeiras de criança,
lembram-se?
E você? Lembra-se, na adolescência, do que queria
ser quando crescesse?
As respostas eram as invariáveis profissões,
engenheira, médica, advogada, atriz, vinham seguidas
de qualificativos como, empresárias, milionárias,
fazendeiras, viajadas, festejadas, famosas, e por aí
vai...
O que aconteceu? Onde foi que você falhou?
Não sou fã de frases feitas ou chavões, mas tem uma
que os americanos adoram que diz mais ou menos assim:
“fail to plan is plan to fail” (falhar em planejar
é planejar para falhar).
Não tenho dúvidas, todas nós temos mil e uma
desculpas para explicar porque o “rei” virou
“cowboy”: não me deram chance, ninguém me
ajudou, aconteceu um monte de coisas, casei grávida,
tive que viajar, parar de estudar, etc. Algumas dessas
lhes parecem familiar? Fique à vontade para estender
e completar a lista de desculpas esfarrapadas. Depois
de pronta podemos até mesmo mandá-la para o muro das
lamentações.
Nossa mania de complicar tudo, nos fazer de vítimas,
e achar que todo peso do mundo deve ser carregado nas
nossas costas, freqüentemente nos afasta do objetivo,
faz com que tomemos decisões e escolhas equivocadas,
com que percamos o foco e nos impede de entender
claramente o que aconteceu.
Ainda assim insistimos; o que aconteceu?
“Minha vida era tão boa, minha infância,
cor-de-rosa, meus sonhos, dourados. Tudo se encaixava,
havia um caminho brilhante à minha frente, e eu me
perdi nele”, alguém diria.
O que faltou? Trabalho, estudo, preparação,
oportunidade, sorte?
Várias coisas, mas certamente faltaram duas ou três
coisas fundamentais.
Primeiro:
definir um objetivo, específico, quantificado.
Lembra-se do sonho da adolescência? De como falávamos
conosco mesmas? Quero ter muito dinheiro, viajar pelo
mundo, casar com um príncipe encantado, e bla, bla,
bla...
Experimente definir as coisas: quer ter quanto de
dinheiro? Cem, Mil, Um milhão?
Quer viajar para onde? Paris? NY? Rio Preto?...Quer
casar com quem? Com o Brad Pitty? Ou com o colega de
colégio? Não importa, desde que seja factível,
defina e especifique seu objetivo. Não vale dizer que
quer ser dona da Petrobrás, sabendo que a maior
fortuna do mundo não dá para comprar nem 5% da
empresa. Fique no plano do possível, as chances de
sucesso são maiores, evita frustrações e o reforço
para sua auto-estima é recompensador.
Segundo:
marcar uma data. Um plano sem data não é plano, e
está fadado a ficar eternamente no campo dos sonhos.
Você pode pensar e imaginar o que quiser e o que você
desejar para você só tem chance de acontecer a
partir do momento que você marca uma data, ou um
prazo ou um tempo para aquilo acontecer.
Esta é a grande diferença entre o sonho (não tem
data, é atemporal, pode ir e voltar, se repetir inúmeras
vezes) e a realidade (tem data certa, transcorre no
tempo e está intrinsecamente lidada a ele).
Começa assim: se você tem 30 anos, o que você quer
alcançar aos 40? Isto, aos 50 aquilo, aos 60
aquiloutro e até onde quiser.
Sabendo onde se quer chegar, evitamos tomar caminhos
errôneos. Ou de outra forma, se você não sabe onde
quer chegar, qualquer lugar serve.
Quando se estabelece um tempo, o cérebro regula o relógio
biológico e todas as outras funções mentais para
que fiquem de prontidão, para que trabalhem a favor,
para que o objetivo seja perseguido, sem diversionismo.
Terceiro: certificar-se
de que o resultado, uma vez alcançado, é o que você
quer.
Como assim, se ele ainda nem aconteceu? Você pode até
se perguntar mas a verdade é que somos dotados de um
instrumento de última geração, que poucos usam
diga-se de passagem, chamado pensamento. Através dele
podemos ir onde quisermos, instantaneamente; não
precisamos esperar acontecer.
Quer ver? Lembra-se, de algum dia na sua vida, em que
você estava se sentindo muito bem, cheia de energia,
alegre, bonita, algo parecido com o que você quer
como resultado do objetivo de que estamos falando? Que
dia foi esse? Quando foi? O que você estava fazendo?
Quem estava com você? Lembrou tudo?
Muito bem, agora faça um exercício.
Feche os olhos, e na imaginação, volte lá para
aquele dia, quando tudo aconteceu, veja de novo a
cena, com você na cena, ouça as vozes, os sons, as músicas,
se havia, e sinta no seu corpo, todas as sensações
daquele momento passado.
O que você me diz? Foi legal? Foi como reviver aquele
acontecimento? Sim?
Isto para demonstrar que seu pensamento não faz de
diferença entre o real e o imaginário. Assim, você
pode usá-lo para saber se o resultado que você terá
ao atingir seu objetivo, é mesmo o que você quer. Se
não for, faça tantas alterações na sua meta,
quantas necessárias.
Quarto: manter-se
no controle, seu objetivo depende só de você. Quando
você entrega sua vida na mão de outro, você perde o
controle, fica a mercê do acaso e não avança, fica
estagnada. Porque você acha que o outro é melhor
condutor da sua vida que você? Quem é o maior
interessado na sua evolução, na sua felicidade, além
de você mesma?
Das pessoas idosas com quem tenho contato freqüente
na clínica, as mais admiráveis têm aquele ar zen,
tranqüilo, típico de quem têm as coisas resolvidas,
a começar por elas próprias.
Sabem que já viveram muito e fizeram muito, e têm a
consciência de que lhes resta relativamente pouco que
ainda não realizaram.
São equilibradas e centradas o bastante para planejar
sim, de forma realista, num horizonte mais próximo, o
cinema da semana que vem, a visita do mês que vem, a
festa de natal...e o HEF do ano que vem. Com
planejamento, a chance de tudo isso acontecer é
grande e a recompensa, maior ainda.
Não se iludam com o viver cada dia como se fosse o último;
mesmo que fosse verdade, você não conseguiria fazer
muito num dia só.
Muito menos caia na tentação do sofisma “quando me
aposentar, minha vida será diferente, vou fazer tudo
que não fiz”. Se você não começar a mudar desde
agora, prepara-se para viver, na aposentadoria, pior
que agora.
Outro chavão: o presente é o passado do seu futuro.
Então, se no futuro, você quiser ter boas lembranças
do seu passado, comece a mudar seu presente. É sua única
chance.
Em suma, organize-se, planeje sua vida, suas finanças,
pague suas contas em dia, tenha disciplina, conviva
com seus amigos, para que você possa exercitar e
usufruir plenamente e por muito tempo, sua saúde, sua
autonomia, seu bem-estar sócio-econômico e cultural.
A felicidade não está necessariamente na fama, na
fortuna, na beleza física.
Ela pode estar num prosaico passeio de fim de semana,
num hotelzinho aconchegante do interior, com cem reais
no bolso, com o(a) antigo(a) amigo(a) de colégio, e
você decidindo o que fazer, com quem mais, quando
chegar, quando partir.
Até o próximo mês, com a Chave número 2,
sobre como você encara a realidade sob o tema “Você
vive no Mapa ou no Território?”