Viver a realidade não é tão fácil ou tão simples
quanto parece.
Principalmente à medida que o tempo vai passando, e
reforçando nossas crenças de que somos os “donos
da verdade”, já vimos e vivemos tudo. Por isto é tão
comum o idoso ser taxado de teimoso, ranzinza,
rabugento, repetitivo, chato e outros.
E você, como você faz para se orientar no mundo
real, pensar, tomar decisões, enfim, viver?
A maioria das pessoas não tem dúvidas quanto a isto;
acham que sabem tudo o que precisam saber e têm um
domínio completo da situação e de tudo que acontece
a seu redor.
Cuidado, pode não ser exatamente assim. E a certeza
aparente pode ser apenas um sintoma de falta de opção.
Mais ou menos assim, “para quem tem como ferramenta
apenas um martelo, todo e qualquer problema é visto
como prego”...
Alguém conhece ou já teve a oportunidade de
observar, um desses que eu gosto de chamar de idoso
bem sucedido?
Já repararam a atitude às vezes contemplativa,
outras, pensativa com que costumam se colocar diante
das mais variadas situações?
Parece que não estão nem aí, que não é com eles!
Gosto de pensar que nesses momentos eles não estão
fazendo outra coisa senão analisar as diversas opções,
antes de emitir um parecer, dar uma opinião ou tomar
uma decisão.
Como se tivessem, no lugar do cérebro, um metafórico
computador que pudessem acessar, procurando no disco rígido,
nas diversas pastas e arquivos guardados na memória,
a melhor solução para as questões que a vida lhes
impõe.
Nunca respondem de bate pronto, primeiro examinam os
problemas sob diversos ângulos, testam as
alternativas, asseguram que já passaram pela mesma
situação antes e confirmam que a resposta dada numa
outra ocasião fora bem sucedida.
Muitos chamam isto de experiência, sabedoria e até
mesmo intuição.
Eu prefiro chamar de percepção profunda da
realidade, que é uma forma de competência
inconsciente, construída pelo acúmulo de acertos
sobre fatos e situações que ele nem sabe que sabe.
- Ah, mas isso é inato – você pode estar pensando.
Em alguns casos sim, mas o bom dessa história é que
essa capacidade, tão apreciada nos outros, pode ser
decodificada, modelada, aprendida e incorporada.
Primeiro, temos que entender como tomamos contato com
e percebemos a realidade. Que ferramentas utilizamos
para nos guiarmos no mundo real?
Alguém diria, a inteligência, a perspicácia, a
lucidez ou qualquer outro atributo. Errado.
Estas são certamente, condicionantes para uma
adequada avaliação e julgamento, mas não para a
percepção e captura dos fatos da vida.
Não escolhemos os acontecimentos, eles se sucedem com
ou sem a nossa permissão. Estamos expostos a eles o
tempo todo e a eles, queiramos ou não, temos que
reagir, nem que seja por omissão.
Então vejamos, nosso primeiro contato com a realidade
se dá através dos sentidos.
Isto mesmo, dos velhos e bons órgãos dos sentidos:
visão, audição, gustação, tato e olfato.
Assim, percebemos tudo que acontece ao nosso redor, no
ambiente, no mundo em que vivemos e esses fatos e
acontecimentos chamamos de experiência profunda, na
forma primária, tal como a recebemos, sem interferências.
Essa primeira percepção passa então por vários
filtros, neurológicos, culturais/sociais, individuais
e lingüísticos e só depois de assim processadas é
que são armazenadas no nosso cérebro, como uma
representação daquilo que, de fato aconteceu,
moldando nossos comportamentos, crenças, valores e
num nível superior, nossa personalidade.
Para não complicar ainda mais, vamos ficar apenas no
nível mais primitivo, o neurológico.
A maioria diria,
-Ah, eu enxergo muito bem, ouço muito bem, e não
tenho nenhum problema para distinguir temperaturas,
gostos e cheiros.
Concordo, mas isto em se tratando de espécie humana.
Mas, e comparado com outras espécies?
Você que enxerga bem. Acha que enxerga tão bem
quanto uma águia, que, voando a mais de 100m de
altura consegue ver um pequeno rato se movendo entre
as pedras e é capaz de num minuto, fazer dele sua
presa?
E você que escuta bem! Será que escuta melhor que um
morcego, que é quase cego e se orienta em pleno vôo
por um sistema de ultra-som mais sensível que um
radar?
E seu tato, é bom? Será que é melhor que o do tubarão
que tem, abaixo das nadadeiras, uma estrutura sensível
a variações de pressão, que lhe permite perceber
uma pessoa nadando à distância?
E já pensou no olfato dos cães?
Isto, simplesmente para dizer que, no fim, somos seres
neurologicamente limitados e o que pensamos ser a
realidade, na verdade é apenas uma representação da
realidade, captada por um deficiente sistema
sensorial.
É a mesma diferença que existe entre o mapa e o
território.
E definitivamente, minhas amigas, o MAPA não é o
TERRITÓRIO, é apenas uma representação dele. Assim
como o cardápio não é a comida; assim como a
palavra cão, não morde.
O que existem são representações mais ou menos próximas
do real, com riqueza de detalhes, explicações e
instruções.
Imaginem a diferença entre uma indicação de endereço
rabiscada num guardanapo amassado, comparada com um
print extraído do googlemaps ou com a orientação
multimídia de um navegador via satélite, esses GPS
que os táxis já estão usando nas grandes cidades. Não
dá para comparar!
Isto sem contar que nem todas as pessoas usam
igualmente todas as ferramentas. Do filtro individual
resulta que apenas um terço das pessoas têm essa
capacidade natural, de processar as informações
usando igualmente todos os canais. As outras, ao longo
da sua formação e desenvolvimento tendem a processar
as informações por canais sensoriais preferenciais,
registrando mais, ora a parte visual das informações,
ora a parte auditiva, ou a cinestésica (das sensações).
E assim vamos nós, como se fôssemos os donos do
nosso mundinho, quando muito, o que temos é um mapa,
uma mera representação da realidade, superficial,
que muitas vezes pouco ou nada tem a ver com a experiência
profunda.
A resultante é uma construção fora do prumo,
desalinhada, do que se pensa ser a realidade. Assim é
que são formadas as crenças limitantes, os medos, os
traumas, as mágoas e todo tipo de sentimento que
impede as pessoas de viverem a vida integralmente.
Assim também aparece todo tipo de limitação,
dificuldades de relacionamento e de comunicação com
os outros e consigo mesmo, dando lugar a manifestações
distorcidas da auto-estima e da autoconfiança, campo
aberto para sabotagens, profecias auto-impostas e
tantas outras generalizações negativas.
Lembre-se do que diz a bula existencialista, “o
importante não é o que fazem com você e sim o que
você faz com o que fazem com você”.
A chave aqui é um longo e paciente aprendizado, de
como usar todas as ferramentas sensoriais, de como
registrar as experiências em todos os canais, ampliar
e enriquecer seu mapa da realidade e permanecer o mais
próximo possível dela.
Quanto mais cedo começar, mais longe se chegará e
mais expandido e detalhado será o seu mapa da
realidade.
O uso mais intenso e freqüente dessas ferramentas
acaba sendo incorporado naturalmente no dia-a-dia,
produzindo efeitos positivos e reforçadores de uma
nova conformação neurológica, novos pensamentos e
novos comportamentos.
E o cérebro, é como um pára-quedas, uma vez aberto
e expandido nos seus limites, dificilmente volta ao
tamanho e à forma original. Ele aprenderá a
funcionar de um modo mais eficiente e criativo, que
prevalecerá e passará a ser adotado como o modo
preferencial.
Expanda seus mapas da realidade, comece já, e
surpreendentemente você terá as indicações necessárias
para chegar, mais fácil e rápido, aonde você quer
ir.
Na próxima edição, vamos explorar a Chave 3,
o Fantástico Mundo das Metáforas e o
que elas significam para nós.